“O TECNICISMO AINDA É O QUE NORTEIA A MAIORIA DOS JOVENS NA EDUCAÇÃO DITA ‘NORMAL’”. Confira a seguir a conversa com as professoras da educação especial do MSL


Por Joyce Anne Pereira e Luccas Euzebio Caldeira


Neste mês de setembro é comemorado o mês da educação inclusiva. Para marcar este acontecimento, entrevistamos três professoras da educação especial da escola.

A educação ainda é uma política social que recebe uma quantidade de recursos menor do que a sociedade demanda. Evidencia disso é que ainda existem crianças e adolescentes fora da educação básica. E o número de pessoas jovens que terminam o Ensino Médio e não conseguem uma vaga em universidades públicas ou privadas, ainda é muito grande. Para ter ideia, apenas 21% dos adultos, com mais de 34 anos, tem diploma de nível superior no Brasil.

A educação básica, em especial, tem enfrentado inúmeras mudanças institucionais e legais, tal como a aprovação da lei do Novo Ensino Médio, em 2017, que definiu uma completa reorganização curricular. Paralelamente à estas mudanças, a educação básica, em vários estados da federação, é gerida por entidades privadas, como Instituto Unibanco, em nosso estado.

Esta simbiose entre o poder público e a administração privada, faz com que inúmeros interesses se sobreponham às demandas e necessidades sociais, principalmente das parcelas mais carentes da população. Uma destas demandas, por exemplo, é a ampliação na oferta de vagas. Sem contar questões um pouco mais difusas, como a lógica que orienta o currículo das diversas disciplinas, que sofre influência direta de concepções e ideologias individualistas, que centram-se no indivíduo acima da coletividade. É neste contexto que a educação especial se institucionalizou, nos últimos, anos no Brasil. Em meio a retrocessos sociais, ela representa um avanço do ponto de vista educacional, e uma proteção legal à setores da população historicamente excluídos e inviabilizados.

Nesta entrevista, as professoras Dierce (professora de pessoas com deficiência intelectual, que trabalha na escola há dois anos), Nathália (intérprete de libras e, também, professora de pessoas com deficiência intelectual) e Thamires (intérprete de libras, que trabalhou conosco em 2018 e retornou em 2020), nos contaram um pouco das suas experiências com a educação especial, dos paradoxos deste cenário que enfrentam, e compartilharam um pouco das suas visões sobre o que a educação especial representa para as crianças e adolescentes que são atendidas por elas.

Vamos à conversa.

MSLNEWS: Quais as diferenças entre a educação especial e a educação “convencional”?

DIERCE: Bom, do meu ponto de vista, a [diferença entre a] educação dita “normal” para aqueles que não são rotulados por um laudo, por um diagnóstico, é a educação que visa, principalmente, o mercado de trabalho. A gente sabe que não é de agora, porque [...] o tecnicismo ainda é o que norteia a maioria dos jovens no mercado de trabalho [...]. Na educação especial, o objetivo correto é centralizar o sujeito que não está "habilitado” para o mercado de trabalho, (pois a maioria, sim, são capazes de desenvolver uma atividade laboral), mas do ponto de vista médico, o laudo “exclui”, como um carimbo que difere aquele sujeito [que tem alguma especialidade] dos outros. Quando se uniu a questão social e médica, começou-se a pensar que o sujeito não é só objeto de produção, ele é um ser, independente da característica que tenha. Hoje, o social é muito importante, então quando eu vejo uma escola que se diz inclusiva que não pensa naquele sujeito (por mais que ele tenha uma limitação), eu me entristeço.

Estamos aqui para provar o contrário, para mostrar pro próprio sistema, para o próprio Estado, que aquele sujeito tem potencial, ele tem direito, tem capacidade, não é só português, matemática, história e geografia, dentro desse contexto pedagógico, nós temos que respeitar a especificidade dele, a condição e o tempo de aprender, mas eu acredito sinceramente que primeiro, antes de torná-lo pedagogicamente capaz, eu tenho que torná-lo socialmente capaz, pois o pedagógico sem o social não é nada. Então, no meu ponto de vista, o nosso papel aqui é tornar os nossos alunos sujeitos de direito, que tenham noção da própria capacidade.

THAMIRES: Em relação à questão de conteúdo, o que normalmente o professor da educação especial aborda? Ele trata as questões de adaptação das atividades, entender o perfil de cada aluno, ela pensa nas adaptações dos conteúdos que estão sendo abordados em sala de aula. Aqui na escola, está tendo uma ação de sentarmos com os professores da sua área de conhecimento e linkar [conectar] com os professores da educação especial, porque dá para fazer um trabalho legal, pois o aluno não é da educação especial, o aluno é da escola, é do professor, ele faz parte de todo esse contexto, mas normalmente os meninos são deixados de lado e as professoras da educação especial são vistas como babás, cuidadoras.

MSLNEWS: Qual o formato que a educação especial adota no Marinete e em outras escolas?

DIERCE: No Marinete, nós temos uma sorte muito grande, já passei por uma escola onde o professor da educação especial não entrava dentro da sala de aula, aqui eles entram na sala, eles participam, interagem, eles ajudam. Aqui no colégio, ainda precisa de alguns ajustes, mas está no caminho certo.

MSLNEWS: Qual a relação entre vocês e os/as demais professores/as da escola?

THAMIRES: Em relação ao atendimento, essa troca dos professores, é uma coisa muito recente, ela só foi legitimada agora que os professores estão começando a pensar sobre, (quando aceitam), porque muitos não aceitam.

DIERCE: Cada professor que eu vejo que tem realmente a empatia, eu comento com as pedagogas, elas precisam saber quais os professores que estão tentando. Faço questão de fazer isso, até para estimular a própria pedagogia, o próprio setor a conversar com esse professor, dar mais estímulo.

NATHÁLIA: Há uma resistência, mas é um trabalho que está sendo construído e precisa ser em conjunto, porque se o professor regente [de turma ou da disciplina] trabalha em conjunto com a gente da educação especial, conseguimos trabalhar a inclusão real na escola, precisamos crescer [com] isso. Se falarmos que a inclusão é total, a gente estaria mentido porque não é, então com o olhar de um professor, eu consigo identificar, a gente observa aquele professor que foi envolvido. Se for para entrar na internet e imprimir um desenho, não precisa, a aula é de matemática, é de português. 

MSLNEWS: Quem são os/as estudantes que podem frequentar a educação especial?

THAMIRES: Qualquer tipo de estudante que tenha alguma deficiência instituída clinicamente por um médico (que tenha laudo). Já teve casos de professoras atenderem os meninos que não tem laudo mesmo ela sabendo, tendo aquele olhar, de que aquela pessoa precisa de algum tipo de atendimento especializado pra ela e a família falar “que que isso, você está tratando meu filho como deficiente?”, então há essas questões do legitimado.

MSLNEWS: Querem comentar algo especial sobre os desafios da educação especial, não só no Marinete, mas também de maneira geral, no Brasil.

NATHÁLIA: Estou muito preocupada sobre a nova política de educação especial que foi lançada em 2020, o decreto 10.502 que é referente a uma modificação que me deixou muito revoltada, sobre essa questão de separar, dar opção aos nossos alunos da educação especial de escolher o espaço “especial” para estarem incluídos [pois isso abre uma brecha legal para separar, novamente, os estudantes da educação especial, dos demais]. Eu não concordo que eles saíam da escola, pois desmistifica toda a questão da inclusão e vamos retroceder muito. Precisamos ter um olhar e ter muito cuidado nessa luta, nessa questão de que isso não volte a ser um afastamento desses alunos.

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