A RETA FINAL DA CORRIDA ELEITORAL: recursos das campanhas, discursos e as intenções de voto nos principais candidatos

por Emanuel e prof. Pedro

A corrida eleitoral chegou ao fim. Os candidatos às disputas majoritárias concorrem às vagas para a presidência da República, à direção dos governos estaduais e ao senado. Mas, como funcionam as eleições majoritárias? Neste tipo de pleito, vão para o segundo turno os/as candidatos/as que atingirem um número maior de votos válidos, que são a soma de todos os votos de todos os candidatos, excluindo-se os votos nulos e brancos. No caso de algum candidato atingir mais de 50% dos votos válidos no primeiro turno, o pleito se encerra sem a realização de segundo turno. Estas são as disputas mais visadas, principalmente para presidente e para governador. Todos os principais candidatos já apresentaram suas propostas, seus programas de governo e deixaram claro o tom e a direção de seus discursos.

Nestas eleições, também serão eleitos candidatos em disputas proporcionais, em que se elege o/a candidato/a dos partidos ou federações (que substituíram as antigas “coligações”) que alcançarem X vezes o quociente eleitoral. E como calcular isso? O quociente eleitoral é o resultado do seguinte cálculo. Divide-se o número de votos válidos de um estado (tanto para deputados estaduais quanto para federais, pois ambos podem receber votos apenas dentro de seus estados), pelo número de cadeiras que este estado tem, seja na câmara federal, seja na assembleia estadual. Os partidos e coligações que alcançarem X vezes o quociente eleitoral, terão direito a X vagas em cada casa legislativa.

Mas se a federação (ou partido) tiver 30 candidatos e alcançar 18,5 vezes o quociente eleitoral? Neste caso, esta federação (ou partido) terá eleito os/as 18 primeiros candidatos de sua “lista”. E estas “listas” são formadas pelos próprios eleitores. Mas como assim? Os primeiros das listas são justamente aqueles/as candidatos/as que tiveram mais votos.

Talvez uma grande parcela do eleitorado brasileiro não conheça em detalhes este mecanismo. E ele pode variar em cada país. Mas, lembrem-se: o colégio eleitoral de todo o país tem 156,5 milhões de eleitores e eleitoras. Deste enorme contingente, 52,6% são mulheres, e 47,3% são homens. Daí uma das razões porque alguns candidatos têm dado mais importância ao eleitorado feminino nestas eleições: elas são maioria. Atualmente, umas das leis eleitorais, obriga todos os partidos a guardarem 50% de suas candidaturas para candidatas mulheres. Ainda que exista a lei, praticamente todos os partidos lançam estas candidatas como “candidatas de fachada”, dado que os nomes mais competitivos continuam sendo de homens, em geral brancos e acima dos 45 anos de idade.

No Espírito Santo, um dos menores colégios eleitorais do Brasil, 2,9 milhões de pessoas estarão aptas a votarem no domingo. O perfil deste eleitorado varia muito, mas o maior grupo também é composto por mulheres, em sua maioria jovens, entre 35 e 44 anos, com baixa escolaridade e apenas o nível fundamental incompleto. O eleitorado capixaba expressa um pouco das principais características do eleitorado nacional: a maioria dele é composto por mulheres (53%), enquanto os homens representam um pouco menos (47%); o maior colégio eleitoral entre os municípios capixabas continua sendo o da Serra com 349,4 mil eleitores, seguido por Vila Velha com 336 mil, Cariacica com 272,6 mil e Vitória com 264,4 mil eleitores.

Em um universo tão amplo, que definirá as pessoas e forças políticas que ocuparão os cargos de direção do Estado brasileiro em suas esferas federal e estaduais, os grupos econômicos e diferentes setores da sociedade querem fazer valer seus interesses e preferências. As candidaturas nacionais mais “competitivas”, como estamos acompanhando pelas últimas pesquisas de intenção de voto, são a do ex-presidente Lula, pelo PT (Partido dos Trabalhadores) e a do atual presidente Bolsonaro, pelo PL (Partido Liberal).

O cenário eleitoral

Esta foi uma das campanhas mais polarizadas das últimas décadas, em que os dois principais candidatos conseguiram se manter, praticamente em todo o período de campanha, à frente em todas as pesquisas. A imagem formada em torno dos dois principais candidatos presidenciais foi a de uma disputa entre “esquerda” e “direita”. Mas um olhar um pouco mais crítico notará que as aspas não são em vão.

De um lado, um ex-presidente que reuniu em torno de sua candidatura, nomes que iam da esquerda, dentro de seu partido, até uma figura historicamente ligada a grupos conservadores, que pode ser considerada como de “centro-direita” e hoje é seu vice-presidente: Geraldo Alckmin (antes desta campanha, ainda filiado ao PSDB, mas que trocou de partido, migrando para o PSB, para assumir como vice na chapa de Lula). De outro, Jair Bolsonaro, com um discurso contundente e defendendo antigas bandeiras conservadoras: família, pátria, liberdade e fazendo uso da fé cristã para ampliar (e consolidar) o eleitorado evangélico e parte do eleitoral católico.

Até o final do ano passado Bolsonaro não tinha sequer um partido para disputar as eleições. Filiou-se em novembro de 2021 ao PL. Foi um casamento que agradou a ambos. Bolsonaro e parte da sua família ingressavam ali em um partido com um número razoável de parlamentares, tempo de televisão (coisa de que o candidato não pôde desfrutar na eleição anterior, em 2018) e recursos vultuosos dos fundos eleitoral e partidário. Sem estes itens, desta vez, a direção de campanha do atual presidente avaliava que seria muito difícil fazer frente à máquina partidária que o PT dispõe, ainda o partido com o maior número de parlamentares no Congresso Nacional e com maior fundo partidário. Do lado do PL, o interesse era “surfar” na onda bolsonarista para tentar eleger o maior número de parlamentares.

As cifras (R$) das campanhas

Outra questão notável é a diferença de recursos que cada campanha dos dois principais concorrentes ao Palácio do Planalto dispõe. O PL já distribuiu mais de R$ 300 milhões de reais a candidatos postulantes a vários cargos, seja no executivo ou no legislativo. Neste montante, há recursos dos fundos eleitoral e partidário, mas também contribuições de pessoas físicas. Porém, para a campanha à reeleição do atual mandatário, sobraram apenas R$ 15,6 milhões, dos quais apenas R$ 10,8 milhões vieram do fundo eleitoral, 1 milhão do PP (partido que compõe a federação de apoio a Bolsonaro) e o restante, 5,6 milhões, de contribuições individuais. Somando estes valores ao fundo partidário, a campanha de Bolsonaro havia alcançado 27 milhões de reais até o início de setembro, em declaração à justiça eleitoral. Em 2018, a título de comparação, a campanha do atual presidente havia declarado à justiça eleitoral, apenas R$ 2,5 milhões de reais. Declaração que teve de ser alterada em seguida, devido a problemas na prestação de contas por não contabilizar parte das contribuições que vieram por meio da internet.

Lula já conta com um valor muito superior: R$ 66,7 do fundo eleitoral do PT. Mesmo Simone Tebet (MDB), bem atrás nas pesquisas, aparece na frente neste quesito: recebeu R$ 30 milhões do fundo eleitoral do seu partido. E Ciro Gomes, por sua vez, em terceiro nas pesquisas, recebeu R$ 16 milhões do PDT, seu partido. Enquanto o PL quer aproveitar a “onda bolsonarista” para eleger seus candidatos (ao todo são 1.591 candidatos em todo o Brasil), no PT, a avaliação é oposta: o mais importante é chegar novamente ao Palácio do Planalto. Enquanto 60% da campanha de Bolsonaro vêm de contribuições individuais, a campanha de Lula conta com maioria de recursos vindos do fundo eleitoral. No final, os valores declarados à justiça eleitoral (até setembro deste ano) são os seguintes:

·     R$ 89,6 milhões é o montante que a campanha de Lula dispõe, dos quais 99,4% vieram dos partidos que compõem a federação em apoio ao ex-presidente;

·   R$ 27,4 milhões é o montante que a campanha de Bolsonaro dispõe, dos quais, 60% vieram dos partidos que compõem a federação em apoio ao atual presidente.

Estes números, atrelados à enorme rejeição que os dois candidatos acumulam, ajudam a explicar a distância nas intenções de voto que têm mantido dos demais candidatos até aqui.

O discurso das campanhas

No campo dos discursos que as campanhas têm utilizado, temos o seguinte quadro. Lula deu enfoque a bandeiras que atinjam o eleitorado de menor renda usando com frequência expressões como “trazer a dignidade do povo de volta”, “botar comida no prato” e afirmando que manterá os valores atuais do atual Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família, criado ainda em sua gestão), o ex-presidente também fez críticas à atual gestão de Bolsonaro durante e “depois” da pandemia, e também, em praticamente todas as áreas de seu governo: economia, meio ambiente e educação;  Bolsonaro, no entanto, deu ênfase em seu discurso ao antigo slogan “Deus, família e pátria”, usando a máquina pública para abaixar artificialmente o preço de alguns bens, como por exemplo, a gasolina e o gás de cozinha. Controle que deverá se manter até as eleições ou até o próximo ano. O atual presidente prometeu também manter o Auxílio Brasil em R$ 600 reais, caso fosse reeleito, entretanto, o orçamento para 2023, permite um benefício de apenas 403 reais. Neste ponto, os dois principais candidatos terão de negociar com o Congresso a manutenção do valor do Auxílio, dado que tais valores consumiram R$ 105 bilhões de reais do orçamento do governo federal até aqui, o que fura o “teto de gastos”, aprovado no governo Temer.

Ainda que nas últimas pesquisas Lula apareça com ampla vantagem (na última pesquisa publicada pelo Datafolha, aparece com 50% das intenções de votos válidos) sobre Bolsonaro (36%), Ciro Gomes (6%) e Simone Tebet (5%), a possibilidade, por pequena que seja, de um cenário sem Bolsonaro no segundo turno ainda leva Ciro Gomes e Simone Tebet a tentar “roubar” eleitores que votariam em Jair Bolsonaro ou Lula. Enquanto Ciro Gomes bate na tecla da economia, de acabar com as dívidas do trabalhador apresentando uma proposta de outro Programa de Transferência de Renda no valor de R$ 1.000 reais mensais, Tebet apresenta um discurso direcionado à defesa das mulheres com o slogan “mulher vota em mulher”. 

Foca também na bandeira da defesa da educação e defende o agronegócio como modelo para a agricultura e a pecuária, além de usar a atuação que teve na CPI da Covid para se posicionar contra Bolsonaro, mesmo que a candidata tenha votado a favor em mais de 80% dos projetos do então presidente.

O resultado das pesquisas

Por fim, vejamos o resultado das pesquisas dos três principais institutos que tentaram captar as intenções do eleitorado nos últimos 45 dias, entre 15 de agosto e 29 de setembro.  







A partir dos resultados das três pesquisas, a constatação mais visível é que, mesmo somando as intenções de voto em Bolsonaro, Tebet e Ciro, o ex-presidente ainda permanece em primeiro lugar, e existe enorme chance de vencer ainda no primeiro turno estas eleições. Caso ocorra um segundo turno, as chances de que ocorra entre o atual mandatário e o ex-presidente, são muito grandes. O que prolongaria a polarização por mais algumas semanas ou, talvez, independentemente do resultado, pelo próximo mandato presidencial.




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