“FEU ROSA, LUGAR ONDE ACHEI CONFORTO E MORADIA"

Por Laura, Nívea e Gabriel

Angelina Francisca dos Reis é mãe, avó, bisavó e, mais recentemente, tataravó. Veio morar em Feu Rosa no ano de 1983. E, desde então, tem deixado a sua marca registrada por onde passa. Mas, acima de todos os papéis que ocupa (e ocupou), dona Angelina é conhecida por sua poesia. Conhecida na comunidade de Feu Rosa, é uma mulher forte, guerreira e, acima de tudo, humilde, que aos 85 anos ainda tem muito a ensinar.

Foi alfabetizada através de suas poesias, tornando-se uma grande poetisa popular digna de muito prestígio. Natural de Minas Gerais, da cidade de Aimorés, veio para o Espírito Santo em 1966 e foi morar no bairro da Penha, em Vitória. No Espírito Santo, dona Angelina engajou-se em diversos “grupos”, desde associações de luta por moradia, no antigo Bairro do Sossego, em Carapina, até grupos de mulheres que lutavam por igualdade, contra a violência de gênero e contra o racismo.

Nesta conversa, que aconteceu em uma manhã de segunda-feira no mês de maio, Dona Angelina contou para nós, um pouco do que viveu, desde quando veio morar no Espírito Santo, das transformações que vivenciou no bairro e de sua percepção sobre alguns dos problemas sociais pelos quais a sociedade brasileira atravessou (alguns deles, como o racismo, ainda não superados). Acompanhe abaixo um resumo da nossa conversa.

MSLNEWS: Por que vocês vieram para Feu Rosa?

ANGELINA: Morei no Bairro da Penha de 1965 até 1969, nós morávamos na pedra, no morro de São Benedito e era muito difícil. Eu era costureira [e] vivia na máquina e meus meninos carregavam água pra encher o tonel na pedra e a gente arrumou esse lugar no [Bairro do] Sossego cá em Carapina chamava Sossego [naquela época, entre as décadas de 1950 e 1970, o bairro de Carapina, na Serra, era conhecido como bairro do Sossego] [*], e meu marido era vivo. Ele já tava meio cansado de carregar água subindo a pedra e eu mudei do bairro da penha chorando, porque eu gostava de lá.

MSLNEWS: Quando e por que a senhora veio morar no Espírito Santo?

ANGELINA: Meu pai comprou um lugar em Ecoporanga, em 1947. Lá eu me formei e me casei. Meu marido era muito problemático e isso fez com que mudássemos muito. Cheguei ao bairro da Penha, dia 6 de janeiro de 1965.

MSLNEWS: Fale um pouco de como era o bairro àquela época.

ANGELINA: Quando o Zé Maria Feu Rosa era o prefeito [da Serra, no início dos anos 1980,] eu mudei pra cá, então ele formou esse grupo, mais como uma favela, era muito distante, ninguém queria, ninguém participava ficaria abandonado esse grupo de Feu Rosa [ela se refere a “grupo”, pois nesta época, estes grupos funcionavam como associações, de luta por moradia, de encontro de mulheres, etc]. Muita gente não gostava do prefeito Zé Maria, mas ele dava muita terra, muito direito de invasão. Porta batendo das casas vazias porque ninguém queria né, ninguém queria morar aqui em Feu Rosa não, lugar distante, parecia que era no fim do mundo, não tinha nada.

MSLNEWS: Qual a principal mudança que a senhora sentiu no bairro?

ANGELINA: Essa Serra que eu conheço hoje, não é aquela Serra de antigamente. Melhorou bastante. Agora [o bairro de] Feu Rosa tem tudo graças a Deus, ainda falta muita coisa ainda né? Mas, em vista de quando eu cheguei...

MSLNEWS: De onde saiu sua paixão por poesia? 

ANGELINA: Paixão pela poesia desde criança, desde criancinha [...]. Era acostumada a trabalhar na roça capinando, plantando e cantando. Eu tinha um irmão que era muito poeta, ele [nos] ensinava [...]. Ele aprendeu muita coisa e passou pra a gente.

MSLNEWS: Como você se sentiu ao ver uma homenagem para você e para sua arte? [Dona Angelina foi homenageada pela prefeitura da Serra em 2015, mesmo ano em que ela seu livro de poesias “Meus Sentimentos”, foi publicado pela Secretaria Municipal de Cultura].

ANGELINA: Eu senti que tive valor, senti que acordei, parecia que eu estava dormindo e que despertei. Fiquei feliz, me senti muito forte! Eu dei a volta por cima. Eu não fico contrariada com nada que as pessoas me oferecem, se me ofender eu tenho que dar a volta. Eu sempre quero ser honesta e honrada.

 

Abaixo, publicamos uma das poesias de Dona Angelina, que compõem a coletânea “Meus sentimentos”

 

“Pra chegar onde eu cheguei,

Para passar onde passei,

Para dormir onde eu dormi,

Pra morar onde eu morei,

Só Deus sabe a minha vida,

 nos lugares que andei.

 

Andei em muita terra,

no Sossego Carapina. Serra foi o último lugar

que eu cumpri a minha fina.

 

Aqui eu achei conforto,

Aqui eu achei apoio e moradia,

Aqui eu achei lugar.

Fui muito perseguida,

Mas também tive muita alegria.

 

E por isso eu agradeço

 O prefeito, José Maria.

 

 A Serra é um lugar bom,

Um lugar bom de morar.

Quem gosta muito da Serra,

Quando sai, quer sempre voltar.

 

A Serra é terra nova, lugar de GENTE morar e também vou dizer para vocês, lugar de se conscientizar.

 

Serra boa, Serra nova,

Serra bonita e donzela,

Lugar que guarda os pobres,

De era em era.

Eu quero viver na Serra, nem que seja na favela.

 

A Serra é lugar de GENTE,

gente boa, gente poderosa.

Quem falar que a Serra é ruim,

 é porquê é vaidosa.

Na Serra só mora gente de grande valor.

É só lutar pelo o que merece.

 

É lugar dos inferiores e dos poderosos, dos ladrões e também do lavrador,

Mas acima de tudo,

a Serra é lugar de trabalhador.



 



[*] Os trechos entre colchetes e em itálico foram acréscimos feito pela redação do MSL News no intuito de tornar mais claro ao leitor algumas passagens, fatos, lugares ou pessoas citados na entrevista.

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